segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Aulas de Literatura_Conhecendo mais o escritor Augusto Abelaira

Começar o dia com uma aula de literatura pode ser um momento imensamente agradável se a opção for transformar este tempo em algo proveitoso. Estive a definir desde o início das aulas que as faria de forma que fossem agradáveis e que trouxessem a aprendizagem de uma forma leve e fluída. Levar aos alunos alguns autores "esquecidos" e fazer com aprendessem mais dentro de um universo tão vasto e enriquecedor.

Sessão de leitura e atividades com cada crônica pode estimular a aprendizagem e trazer um bom ambiente. Há que se aprender todos os dias a dar aulas mais dinâmicas e perceber que os alunos apreciam este tempo que passam num encontro com a literatura.

Aqui deixo uma crônica de Augusto Abelaira, uma das mais belas crônicas que transmitem muita emoção. Deixe-se levar pelos mais belos sentimentos e por um autor que traduz em palavras tanta sensibilidade.

ESCREVER NA ÁGUA


Carlos
Não me importa agora que Carlos de Oliveira fosse o autor de algumas das mais belas poesias da língua portuguesa. Nem que tivesse escrito o mais misterioso e envolvente dos nossos romances. E isto nunca lho disse. Um pudor absurdo? Cheguei a afirmar publicamente (mas a ele, nunca) que considerava Finisterra  (ou, melhor, Finisterra: paisagem e povoamento, ele irritava-se que lhe cortassem o título) o melhor romance português dos últimos 30 anos. Mas não era verdade – e só o tal pudor impediu que dissesse: de toda a literatura portuguesa (e não esquecendo Os Maias). Coisa que percebi imediatamente após a leitura da prova amorosamente dactilografada pela Ângela em papel azulado. Porque não lho disse se o sentia? Que pudor é este? Talvez não somente pudor, o receio da ironia dele: Você é uma pessoa muito amável e não acreditaria, pensaria que eu estava a lisonjeá-lo. E eu não queria que ele pudesse pensar isso de mim. Para ele era mais verossímil uma admiração modesta, ele não tinha verdadeira consciência do livro que escrevera. Rendi-me à falsa verossimilhança.
Mas não importa isso agora, repito, porque mais importante me parece o amigo. E recordo-me de que, com a minha estúpida mania de brincar com coisas sérias, declarei recentemente a um jornal: Não tenho amigos. A hipócrita tentativa de ouvir alguém protestar, de ouvir o próprio Carlos de Oliveira? E estou a ver o rosto magoado, profundamente magoado, dele, quando no dia seguinte o encontrei. Você não será amigo de ninguém, é lá consigo, mas há pessoas que são suas amigas e você não tem o direito de falar como falou. Desejei meter-me pelo chão abaixo, o Carlos de Oliveira era um pouco a voz da consciência, uma consciência que se amava e que se temia. Um desses amigos capazes de sofrer pelos outros. Com os outros.
Mas agora? Carlos de Oliveira era uma das três pessoas com quem eu me habituara a conversar na própria ausência delas. O interlocutor de certos momentos quando eu estava sozinho. Quando escrevia um livro (que pensará o Carlos de Oliveira?). Quando via um bom filme (ele que não ia ao cinema). Quando lia um bom livro. Até quando amava. Sim, que pensará o Carlos de Oliveira? E apesar de vê-lo todos os dias conversava mais com ele quando não estava com ele.
Com quem vou agora conversar quando estiver sozinho, agora que das três pessoas com quem conversava em silêncio já outra morreu alguns tempos antes? E penso nas tantas coisas que lhe disse em silêncio, mas que não me atrevi a dizer-lhe na realidade.
Uma porção de coisas que andavam a afogar-se e que só a ele poderia confessar.
Recentemente fizemos uma aposta. A esquerda ganharia ou não em França? Céptico, eu dissera que não. Ele, que sim. Perdi a aposta que era um jantar. E íamos jantar num dia destes – ainda na terça-feira falámos nisso. Eu decidira ter a tal conversa, pôr em dia as muitas conversas que com ele tivera não tendo. A fascinação de pôr a alma a nu - a certeza de que só ele me saberia ouvir com esse misto de ternura e de ironia que tanto o caracterizava, a sua generosidade sem mácula, a sua prodigiosa capacidade de compreender sentindo-me se aproximar discretamente de nós. O seu conselho. A sua amizade.
Mas agora não é mais possível (continuarei decerto a falar com ele, mas na ausência definitiva). E como se fala com um amigo que se sabe que já morreu, como será possível manter esse teatro?
Quanto os livros... Que importa um livro, mesmo um grande livro, comparado com um amigo generoso?



domingo, 3 de novembro de 2013

Novos projetos

Bom dia,

Estou aparecendo depois deste período de ausência, mas não de esquecimento. Confesso que pensei no blog e no que poderia escrever. Aqui estou para partilhar os novos projetos.

Recentemente comecei a dar aulas em regime de voluntariado numa Universidade Sénior, uma experiência marcante sobretudo porque aprendo em cada aula e acredito que é nisso que reside um dos maiores momentos desta partilha de informação. 

Vive-se intensamente em cada encontro com os alunos, pessoas que estão disponíveis para a aprendizagem e que nos deixam sempre com grandes sorrisos que transformam ainda mais o nosso papel na sociedade.

Estou com duas aulas por semana. Dou aulas de Comunicação Humana, uma disciplina dedicada ao estudo de alguns conceitos, nada exaustivo, mas sobretudo de mostrar o quanto podemos melhorar a nossa comunicação ao sabermos o que é, como pode ser trabalhada, quem somos etc. 

Também estou a dar aulas de Literatura Portuguesa, construí o programa em função de mergulharmos na leitura e aprendermos mais sobre narrativas, tais como: contos, crônicas etc. Fazemos uma breve sessão de leitura em algumas aulas e desenvolvemos uma dinâmica de estudo da obra o que nos leva para os momentos de reflexão. Queremos com isso que cada um de nós seja capaz de sair diferente da sala de aulas e que ao ler possamos aprender ainda mais.

Amanhã, lá estaremos com mais crônicas. Aproveitaremos para um mergulho em Fernão Lopes, Augusto Abelaira e Luís Fernando Veríssimo que aparecerá como um presente final :)

Futuramente irei escrever sobre o Augusto Abelaira, um autor que vale a pena conhecer e reconhecer ainda mais. Um talento que merece ser partilhado. Descubram-no!

Desejos de uma semana excelente e com boas leituras

sábado, 29 de junho de 2013

Meia com pelos

Que o mundo das invenções é surpreendente, ninguém tem dúvidas, ainda mais se estiver habituado a passar por alguns momentos do dia por alguns sites que trazem estas "loucuras", algumas praticáveis e outras que nos fazem rir, digamos, pensar se seria possível alguém usá-las.

Deparei-me com a meia com pelos, a ideia de espantar os homens mais pervertidos, o que poderia ser uma medida inteligente em certos transportes públicos onde alguns "homens" insistem em abusar nos empurrões e mãos mais atrevidas, no entanto, fico a perguntar-me porque uma pessoa usaria tal meia e não trocaria esta ideia por uma simples calça. Na minha cabeça faria mais sentido, mas ainda estou a ser lida por alguém que gosta das tais meias e já pensa em comprá-las no futuro.

Para quem ficou por aqui no sábado à noite, fica a imagem para que possa pensar sobre este momento, uma mulher e suas meias com pelos :)


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mestrado

Nestes dias em que uma pessoa parece de folga do blog, o pensamento passa por aqui, mas as leituras e partilhas que se pretende alimentam algo para ser construído com tempo e fundamentado, mas hoje resolvi sair desta ideia conciliando as leituras feitas durante este processo de escrita da dissertação para o Mestrado deixando aqui este registro e partilha.

Reforçamos os nossos objetivos quando nos envolvemos com um projeto que apreciamos, quando fazemos uma escolha e orientamo-nos para que possamos ter os melhores resultados. Acima de tudo, a realização pessoal, sinto-me contente com cada linha escrita, com o desenvolvimento de algo que acredito. 

Como surge um "tema"? Teriam tantas explicações, mas resolvi sair da primeira pessoa do plural e ir diretamente à primeira pessoa do singular, escreverei como "eu" encontrei o tema.

Parece um tanto inusitado, mas já tinha pensado em fazer algo que envolvesse a história dos profissionais de Relações Públicas, mas caminhava sempre entre perguntas e mais perguntas, até que um dia, depois de uma passagem pelo caixa automático, aquela velha e tão frequente constatação de que o meu salário não era suficientemente adequado ao que eu pretendia (pretendo) fazer da vida. Numa passagem num centro comercial que fica pouco depois do banco, no meio de tantos pensamentos sobre o que faria com o que ganho e o que poderia modificar, de repente, apareceu a ideia realmente mais clara do que pretendia fazer no meu trabalho de Mestrado. Simples? Não, mas fiquei mais orientada de que seria realmente este o caminho. Depois me envolvi com as pesquisas para fundamentar a minha escolha e aplicá-la de acordo com o pretendido. Ninguém faz um caminho sozinha, precisamos de orientadores, de autores que pensaram em "n" coisas, no meio desta mistura toda, encontramos os nossos caminhos e fazemos às nossas escolhas.

Ainda não estou dizendo do que se trata realmente o meu trabalho, este irá desenvolver-se por mais alguns meses e depois irei partilhar mais sobre o mesmo. Consigo aos poucos fortalecer à ligação entre o que acredito e os autores que podem sustentar à minha opção.

Basta sempre pensar positivo, questionar-se e ir à luta. Estará pronto no tempo certo e será de todo de acordo com o que pensei inicialmente, diria mesmo, que estará além daquele primeiro momento, afinal, descobri tantos "encantos" ao longo do percurso e agora com a fase de "entrevistas" descobrirei novas formas de ler o meu objeto de estudo.

Viva!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

As mentiras que os homens contam_Luís Fernando Veríssimo

Uma leitura muito recomendada, são 41 contos que nos fazem rir e viajar pela escrita bem humorada e inteligente de Luís Fernando Veríssimo. Vale a pena reservar um tempo para colocar a leitura em dia.

"Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade.
Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor um doente do que um vagabundo. E se ela não acreditasse, e nos mandasse ir à escola de qualquer jeito, ainda tínhamos um trunfo sentimental. "Então vou ter que inventar uma história para a professora", querendo dizer vou ter que mentir para outra mulher como se ela fosse você. "Está bem, fica em casa estudando!" E ficávamos em casa, fazendo tudo menos estudar, dando-lhe todas as razões para dizer que não nos agüentava mais, que é outra coisa que mãe também adora.
A primeira namorada. Mentíamos para preservar nosso orgulho, certo?
- Não, não, eu estava passando por acaso. Você acha que eu fico rondando a sua casa o dia inteiro, é?
Mas o que vocês pensariam se nós disséssemos: "Sim, sim, não posso ficar longe de você, penso em você o dia inteiro, aqueles telefonemas que você atende e ninguém fala, sou eu! Confesso, sou eu! Vamos nos casar! Eu sei que eu só tenho 12 anos e você tem 11, mas temos que nos casar! Senão eu morro. Senão eu morro!"? Vocês se assustariam, claro. A paixão nessa idade pode ser um sumidouro. Mentíamos para nos proteger do sumidouro.
Outras namoradas. Outras mentiras.
- Eu só quero ver, juro. Não vou tocar.
Vocês não queriam ser tocadas, mas ao mesmo tempo se decepcionariam se a gente nem tentasse. Nem desse a vocês a oportunidade de afastar a nossa mão, indignadas. Ou de descobrir como era ser tocada.
Namorar - pelo menos no meu tempo, a Renascença - era uma lenta conquista de territórios hostis, como a dos desbravadores do Novo Mundo. Avançávamos no desconhecido, centímetro a centímetro, mentira a mentira.
- Pode, mas só até aqui.
- Está bem. Não passo daí.
- Jura?
- Juro.
- Você passou! Você mentiu!
- Me distraí!
Dávamos a vocês todos os álibis, todas as oportunidades para dizer depois que tudo acontecera devido à nossa calhordice e não à vontade que vocês também sentiam.
Não mentíamos para vocês, mentíamos por vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram os que enganavam as mulheres. Os calhordas diziam, abjetamente, a verdade. Não faziam o que juravam que não iam fazer, transferindo toda a iniciativa a vocês. É ou não é? Mas isso tudo mudou, desgraçadamente bem quando eu deixei para trás as tentações do mundo e entrei para uma ordem (a dos monógamos). A revolução sexual, que um dia ainda vai ser comemorada como a Revolução Francesa, com a invenção da pílula anticoncepcional correspondendo à queda da Bastilha e o fim dos sutiãs ao fim da monarquia - e o termo sans culotte, claro, adquirindo novo significado - tornou o relaciona-mento entre homens e mulheres mais franco e desobrigou os homens de mentir para as mulheres para salvar a honra delas. Aliás, dizem que a coisa virou de tal maneira que hoje a mentira mais comum dita pelos homens é "Esta noite não, querida, estou com dor de cabeça". Não sei. Mas continuamos mentindo a vocês para o bem de vocês.
"Rmmwlmnswl" não significa que nós estamos fingindo dormir com medo de ir ver que barulho é aquele na sala. Significa que estamos fingindo dormir para que você vá ver com seus próprios olhos que não é nada e pare com esses temores ridículos, e se for mesmo ladrão nos avise a tempo de pular pela janela.
"Fiquei fazendo companhia ao Almeidinha, coitado, ele ainda não se refez" significa que a nova gata do Almeidinha só saía com ele se ele conseguisse um par para a prima dela, e nós fazemos tudo por um amigo, mas não queremos estragar a ilusão de vocês de que a separação deixou o Almeidinha arrasado, como ele merecia.
"Está quase igual ao da mamãe" significa que não chega aos pés do que a mamãe fazia, ou então que está muito melhor, mas que o importante é vocês não se sentirem nem tão ressentidas que decidam atirar o doce na nossa cabeça e depois se arrependam, nem tão confiantes que parem de tentar ser iguais à mamãe, e no dia que a gente disser que está sentindo uma coisa estranha bem aqui, só para não ir trabalhar e ficar vendo o programa da Xuxa, vocês não digam "Comigo essa não pega" e nos botem para a rua."